Início Blog Comportamentos desafiadores
Orientação para pais

Comportamentos desafiadores: o que existe por trás dos gritos, das agressões e das recusas

Por que olhar além do comportamento muda a forma de ajudar uma criança — e de cuidar de quem cuida dela

J Juliana Ribeiro Psicóloga · Leitura de 9 min

Se você já terminou o dia pensando "eu não sei mais o que fazer", "nada do que eu tento funciona", "será que estou errando como mãe?", "será que estou sendo rígido demais?" ou "será que estou sendo permissivo demais?" — saiba que você não está sozinha.

Poucas coisas geram tanta angústia em uma família quanto os chamados comportamentos desafiadores. Os gritos. As agressões. As recusas constantes. As respostas ríspidas. Os objetos jogados. As crises diante de pequenas mudanças. As dificuldades para aceitar limites. E, talvez o mais difícil de tudo, os olhares de julgamento de quem não conhece a história daquela criança.

Muitas famílias chegam ao atendimento emocionadas, cansadas e carregando uma culpa enorme. Algumas choram. Outras se sentem fracassadas. Muitas acreditam que estão falhando porque seu filho apresenta comportamentos difíceis. Mas há algo importante que a Psicologia nos ensina: comportamento não é caráter.

Uma criança não é agressiva — ela apresenta agressividade em determinados momentos. Uma criança não é manipuladora — ela usa comportamentos que aprendeu para tentar lidar com situações difíceis. Uma criança não é desobediente por natureza — ela pode estar enfrentando dificuldades emocionais, sensoriais, cognitivas ou de comunicação que ainda não sabe administrar. Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a forma como enxergamos e ajudamos uma criança.

O comportamento é a ponta do iceberg

Imagine um iceberg: a parte que vemos acima da água é pequena; a maior parte fica escondida. Com os comportamentos acontece algo parecido.

O que os pais costumam enxergar é o grito, a agressão, a recusa, a birra, o enfrentamento, a oposição. Mas, por baixo desse comportamento, podem existir muitas outras coisas: ansiedade, medo, frustração, dificuldades de comunicação, sobrecarga sensorial, cansaço, insegurança, baixa tolerância à frustração, dificuldades de autorregulação emocional.

Quando olhamos apenas para o comportamento, tentamos apenas apagar o incêndio. Quando entendemos o que existe por trás dele, começamos a cuidar da causa.

O que os pais sentem e raramente têm coragem de dizer

Há uma parte dessa história que merece muito acolhimento: a dor de quem cuida. Porque cuidar de uma criança com comportamentos desafiadores pode ser extremamente desgastante.

Alguns pais vivem em estado constante de alerta. Nunca sabem quando virá a próxima crise, se conseguirão terminar um passeio, como a criança vai reagir a uma mudança inesperada. Muitos deixam de ir a festas, restaurantes, igrejas, eventos familiares e viagens, com medo do julgamento. E, junto desse medo, costuma surgir a culpa: por sentir raiva, por perder a paciência, por desejar alguns minutos de silêncio, por pensar "eu só queria descansar".

Se você já sentiu isso, há algo importante a dizer: esses pensamentos não fazem de você uma pessoa ruim. Fazem de você uma pessoa cansada — e existe uma diferença enorme entre as duas coisas. Você pode amar profundamente seu filho e, ao mesmo tempo, sentir-se exausta. As duas verdades cabem juntas.

Por que algumas crianças apresentam mais comportamentos desafiadores

A resposta é complexa, porque não existe uma única causa. Mas a Psicologia e a Análise do Comportamento mostram que, em geral, esses comportamentos cumprem alguma função. Todo comportamento produz uma consequência — e é essa consequência que muitas vezes o mantém acontecendo.

A criança pode estar tentando conseguir atenção, obter algo que deseja, escapar de uma situação difícil, evitar um desconforto sensorial ou expressar emoções que ainda não sabe comunicar. Isso não significa que ela faça tudo isso de forma consciente. Na maioria das vezes, ela apenas aprendeu que determinado comportamento produz determinado resultado.

Quando a criança agride

Bater, empurrar, morder, chutar, jogar objetos — talvez esse seja um dos comportamentos que mais assustam as famílias.

É importante entender que a agressão costuma ser um sinal de desregulação emocional. Ela acontece, em geral, quando a criança não tem recursos suficientes para lidar com uma situação. Isso não significa que deva ser ignorada — significa que precisa ser compreendida.

Intervenha de imediato para garantir a segurança de todos: a própria criança, os irmãos, os colegas, os adultos. Seja firme e calmo ao mesmo tempo: evite gritar, humilhar ou ameaçar, porque quanto mais intensa a reação do adulto, maior tende a ser a desorganização emocional da criança. E ensine alternativas: muitas vezes dizemos "não bata", mas esquecemos de ensinar o que fazer no lugar de bater. A criança precisa aprender estratégias concretas — pedir ajuda, pedir uma pausa, respirar, sair do ambiente, expressar o que sente com palavras ou com recursos visuais.

Quando a criança não aceita limites

Outro sofrimento frequente é a dificuldade da criança em lidar com o "não". Algumas parecem reagir intensamente a qualquer frustração, e isso pode acontecer por vários motivos.

Uma das explicações está ligada à dificuldade de autorregulação emocional: a criança sente emoções intensas, mas ainda não desenvolveu recursos suficientes para administrá-las. Por isso o limite gera sofrimento real — não porque ela é "mimada", mas porque ainda está aprendendo a tolerar frustrações.

Ensinar essa tolerância passa por não tentar eliminar todas as frustrações. Por amor, muitos pais tentam evitar qualquer sofrimento, mas as pequenas frustrações fazem parte do desenvolvimento saudável: esperar, dividir, perder, errar, ouvir "não" — tudo isso ajuda a construir resiliência emocional. O caminho é acolher o sentimento sem retirar o limite. Você pode dizer "eu sei que você ficou bravo", "entendo que queria muito isso", "é difícil esperar" — e, ainda assim, manter a decisão. Acolher não é ceder; é ajudar a criança a atravessar aquela emoção.

O poder da atenção positiva

Um dos enganos mais comuns — e totalmente compreensível — é gastar quase toda a energia corrigindo. Ao longo do dia, repetimos "não faça isso", "pare", "sai daí", "não mexe", "chega", e acabamos esquecendo de valorizar os comportamentos adequados.

A Análise do Comportamento mostra que aquilo que recebe atenção tende a aumentar. Por isso, procure observar os acertos, mesmo os pequenos: "gostei de como você pediu", "você esperou a sua vez", "percebi o seu esforço", "que legal como você resolveu isso". Esses momentos fortalecem justamente as habilidades que queremos ver crescer.

A importância da consistência

Uma criança aprende melhor quando o ambiente é previsível. Quando hoje uma regra existe e amanhã desaparece, ela recebe informações contraditórias. Por isso, os combinados precisam ser claros — não perfeitos, mas consistentes. E isso vale para todos os cuidadores: sempre que possível, pais, avós e demais familiares devem tentar alinhar expectativas e limites.

E quando nada parece funcionar?

Há momentos em que os pais sentem que estão tentando de tudo — conversam, explicam, criam combinados, buscam informação — e, mesmo assim, os comportamentos continuam.

Nessas horas, vale lembrar que mudanças comportamentais levam tempo. Nenhuma habilidade emocional se constrói da noite para o dia. Assim como uma criança não aprende matemática em uma única aula, ela também não aprende autocontrole em uma única conversa. O desenvolvimento acontece pela repetição, pela prática, pela experiência e pelo apoio consistente dos adultos.

A importância da terapia

Quando os comportamentos desafiadores estão causando sofrimento significativo para a criança ou para a família, buscar ajuda profissional não é sinal de fracasso — é sinal de cuidado.

O psicólogo pode ajudar a identificar as funções do comportamento, orientar estratégias específicas e fortalecer as habilidades emocionais da criança. Mas há algo que merece destaque: a terapia também pode ajudar os pais. Porque, muitas vezes, o sofrimento não está apenas na criança — toda a família está cansada, assustada, confusa e precisando de acolhimento.

Uma mensagem para quem está exausta

Talvez ninguém tenha dito isso a você recentemente. Então deixamos registrado aqui: você está enfrentando algo difícil, e provavelmente está fazendo muito mais do que imagina.

Seu filho não precisa de um pai perfeito, nem de uma mãe perfeita. Precisa de adultos que continuem presentes, que tentem de novo depois de um dia ruim, que peçam desculpas quando necessário, que aprendam junto com ele e que enxerguem além do comportamento.

Por trás dos gritos existe uma criança. Por trás da agressividade, um sofrimento. Por trás das recusas, uma necessidade. E por trás do cuidador cansado existe alguém que ama profundamente.

O amor não aparece apenas nos momentos bonitos. Ele também aparece quando você continua tentando. E, muitas vezes, é exatamente essa persistência amorosa que transforma os comportamentos mais difíceis em oportunidades de crescimento, aprendizado e conexão.

J
Juliana Ribeiro
Psicóloga e neuropsicóloga da Clínica Nascente. Acompanha crianças no desenvolvimento emocional e na aprendizagem, com olhar atento ao vínculo familiar.

Os comportamentos do seu filho têm pesado na rotina?

Conte para a nossa equipe o que você tem percebido. A gente ajuda você a compreender o que está por trás e a encontrar o melhor próximo passo — com escuta e sem julgamentos.

Falar no WhatsApp
Leia também